Quando pensamos em Grécia, uma das primeiras idéias que nos vêm é a de tempo, de tempo antigo, de história. Estamos acostumados a contemplar os Gregos via história, via arte, via literatura, entre outros. Mas, e os descendentes desses gregos que povoam a nossa imaginação? Pouco sabemos sobre a história da Grécia Moderna, menos ainda sobre os gregos que imigraram para o Brasil.
Para preencher essa lacuna foi lançado o livro "Os Guardiões das Lembranças - Memória e Histórias dos imigrantes gregos no Brasil", de Vassiliki Thomas Constantinidou, em edição independente, registrando através de relatos orais a história dessa comunidade pequena, que compõe a população do nosso país e faz parte da vida brasileira há quase 170 anos.
Uma das coisas que mais ouvimos dos gregos é "siga, siga" que traduzido ao pé da letra seria "devagar, devagar" ou o correspondente do nosso dizer "devagar se vai ao longe". Praticamente não há conversa na Grécia em que não seja escutada essa expressão como um conselho para as mais diversas situações. A sabedoria de quem vive num 'tempo longo', parece mesmo ser deles. E Vassiliki usou dessa sabedoria para não desistir de um projeto que levou 16 anos para chegar a esse livro
Resultado de pesquisa histórica e 70 entrevistas realizadas desde 1993, o livro reconstitui parte da história da imigração grega no Brasil, através de depoimentos e um rico acervo iconográfico, composto por 380 fotos. A narrativa resgata sonhos e lutas, as difíceis condições enfrentadas durante a viagem pelos imigrantes, profissões, as razões que os levaram a emigrar, como se adaptaram à nova realidade, além de uma linha do tempo sobre a história da Grécia Moderna.
A autora é jornalista, nasceu em Atenas e chegou ao Brasil com três anos. Se serve de sua capacidade de pesquisadora, de observadora imparcial, para reunir depoimentos, organizar a cronologia histórica e desenhar um mosaico, uma espécie de espelho, que reflete a eterna trajetória humana. E combina isso com uma forma artística, visceral, afetiva de uma pesquisa que é em parte a sua própria história e a história da comunidade a que pertence, participa, propõe, organiza, reúne. Essa é, portanto, uma obra viva, além de ter um rico material fotográfico e documental que acompanha a narração baseada na memória oral.
É um registro gráfico, que coloca disponível para as gerações futuras, através desse trabalho, como "...uma janela aberta sobre um universo distante. Um convite ao olhar, uma viagem a um tempo esquecido, que só existe na memória dos velhos - os guardiões das lembranças."
Gabriela Briochi - artista plástica
Vassiliki Thomas Constantinidou elaborou uma obra cuidadosa e necessária para mostrar no escrito sobre a folha de papel o que todos nós aprendemos pela oralidade poética de nossos genitores. Os finos retratos de seu livro são emocionantes, marcantes e cheios de uma vitalidade que honram a memória de homens esquecidos, memorados e (todos) queridos. As palavras que resvalavam na atmosfera de nossos lares ganharam o contorno literário há tanto merecido. Sua obra é um ato de bondade, carinho, delicadeza e coragem. A beleza das histórias dos gregos do Brasil não se encontra apenas nas letras e fotos cuidadosas dOs Guardiões das Lembranças. Estão no perfeito entendimento racional e emocional da natureza dos processos e, sobretudo, dos homens que percorreram as milhas náuticas em busca de algo que sequer conheciam. A memória, apesar de muitos pensarem assim, não reconstrói o tempo: não o anula tampouco. Faz cair a muralha que separa o presente e o passado e edifica um pontilhão entre o mundo dos vivos e do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz incandescente do sol. É isto que se vê em Os Guardiões das Lembranças.
Francisco Petros - economista